O futuro dos negócios não será definido pela tecnologia em si, mas por quem conseguir manter o humano no centro das decisões
Daniel Pisano é Head de investimentos da 87 Labs e CGO da Payloop.
Os eventos sempre trazem experiência e resultados. Mas, de tempos em tempos, eles também revelam algo mais profundo: mudanças de direção. Foi exatamente isso que aconteceu em Porto Alegre.
A cidade voltou a se posicionar como um dos principais pólos de inovação do país, mas o que se viu no South Summit Brazil 2026 foi menos sobre futuro e mais sobre presente. A inovação deixou de ser promessa e passou a ser operação. E, no meio desse movimento, uma pergunta atravessou praticamente todos os palcos e conversas de bastidor: estamos construindo a inteligência artificial para servir às pessoas ou começando, silenciosamente, a treinar pessoas para servir à lógica da tecnologia?
Essa provocação ajuda a entender o verdadeiro pano de fundo do momento atual. Sob o tema “Human by Design”, o evento não apresentou apenas tendências, mas um alerta. A tecnologia evolui em ritmo acelerado, mas o protagonismo humano começa a ser colocado à prova. E isso não acontece de forma abrupta, mas em pequenas adaptações do dia a dia.
Hoje, já é possível observar pessoas moldando comportamentos para performar melhor para algoritmos. Decisões sendo tomadas exclusivamente com base em dados, muitas vezes desconectadas de contexto. Experiências digitais desenhadas para retenção, não necessariamente para geração de valor. O risco não está na tecnologia em si, mas na inversão da lógica: quando o humano deixa de ser o ponto de partida e passa a ser ajustado ao sistema.
Nesse cenário, a inteligência artificial já não ocupa mais o lugar de novidade. Ela se consolidou como infraestrutura. Está presente na criação de conteúdo, na análise de dados e na otimização de processos em escala. Não é mais diferencial competitivo. É pré-requisito. Empresas que ainda tratam IA como inovação estão, na prática, operando em atraso.
Ao mesmo tempo, outro movimento ganha força: a transformação do papel dos criadores de conteúdo. Eles deixam de ser apenas canais de mídia e passam a atuar como operadores de negócio. Participam do desenvolvimento de produtos, influenciam decisões estratégicas e se tornam peças centrais na distribuição. O que antes era audiência agora precisa se transformar em operação.
E esse talvez seja um dos pontos mais relevantes dessa nova fase. Audiência, por si só, deixou de ser ativo suficiente. O valor está na capacidade de converter atenção em estrutura. Em transformar alcance em receita recorrente. Nesse contexto, o influenciador dá lugar ao empreendedor digital.
A discussão também avança para além do digital. Mobilidade elétrica, cidades inteligentes e plataformas de mensagem como hubs de negócios mostram que a inovação está cada vez mais integrada à infraestrutura. A tecnologia deixa de ser camada e passa a ser base.
Diante desse cenário, três movimentos se consolidam com clareza. A inteligência artificial se estabelece como custo de entrada, e não mais como diferencial. A confiança do consumidor se torna o principal campo de disputa, impulsionada por prova social, reputação digital e conteúdo gerado por usuários. E os criadores passam a ocupar um espaço equivalente aos principais canais de distribuição, como SEO e e-mail marketing.
Mas o ponto central não está nas tendências. Está na direção.
As empresas que vão liderar essa nova fase não serão necessariamente as mais tecnológicas. Serão as que conseguirem manter o humano no centro das decisões. As que entendem que dados orientam, mas não substituem contexto. Que automação escala, mas não constrói relacionamento.
Porque, no fim, crescimento sustentável não vem da tecnologia. Vem da capacidade de transformar interação em relação. E relação em comunidade.

