quinta-feira, julho 2, 2026
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Fernanda Meirelles da Technology, Media & Telecommunications

Principais tendências da área de Mídia & Gaming para 2026

Se 2024 foi o ano da regulamentação e 2025 o da aplicação prática, 2026 deveria se desenhar como o primeiro ano em que o mercado passa a pressionar a regulação, e não o contrário. Partindo da premissa, repetida por Régis Dudena, de que a regulação é organismo vivo, a grande verdade é que esse organismo só se move porque o mercado o obriga a reagir, ajustar e expor fragilidades.

A Agenda Regulatória, cuja consulta pública foi recentemente aberta, continua sendo um norte importante, uma bússola que ajuda o setor a entender as intenções e prioridades do regulador. Mas, à medida que o mercado amadurece, essa relação deixa de ser unidirecional. O que se observa para 2026 é que não é mais apenas o regulador que pauta o mercado, é o próprio mercado que começa a pressionar, provocar e empurrar a autoridade a agir com mais precisão, velocidade e coerência. A Agenda serve como referência, mas as tendências reais nascem da prática, dos conflitos, dos ruídos reputacionais, dos desafios operacionais e das demandas que o próprio setor coloca à mesa.

Assim, quando reaparecem temas como autorização de operadores, publicidade por afiliados, jogo responsável e PLD/CFT, o que se revela não é falta de avanço, mas sim que esses são os pontos que sustentam o sistema. Eles retornam porque o mercado muda mais rápido que a norma, e porque o funcionamento saudável do setor depende de ajustes contínuos, não de decretos pontuais.

O processo de autorização ilustra isso com clareza. Ele não volta ao debate por lacuna normativa, mas porque é o dispositivo que garante a credibilidade do mercado. Licença não é carimbo, é filtro, e filtros precisam evoluir quando as estratégias de risco também evoluem. O que o regulador sinaliza não é novidade, deveria ser ambição: transformar o licenciamento em governança efetiva, não apenas rito procedimental.

O tema dos afiliados segue essa mesma dinâmica, mas agora com uma camada dramática: a crise reputacional criada pelo próprio setor, e o medo silencioso que o mercado regulado desenvolveu de quem antes impulsionava seu crescimento. Durante anos, a publicidade desenfreada, muitas vezes conduzida por afiliados sem preparo e sem freios, deteriorou a percepção pública e alimentou debates que o mercado regulado não pode mais contornar. A discussão para 2026, portanto, não se limita a formatos de anúncio: trata-se de decidir se o modelo de afiliação pode ser resgatado e colocado a serviço da reconstrução reputacional. O paradoxo é claro: os afiliados contribuíram para o problema, mas, se reposicionados, podem ser justamente a engrenagem mais eficiente para revertê-lo.

Não há espaço futuro para quem ainda opera sob a lógica da promessa fácil e da opacidade. Se quiserem permanecer, afiliados terão de ser incorporados – com treinamento, governança e responsabilidade – como instrumentos de credibilidade, não de ruído. Talvez 2026 seja, enfim, o momento em que o mercado deixe de temer esse modelo e passe a tomar posse dele, convertendo-o em vetor de mudança cultural em vez de combustível de crise.

Jogo responsável e PLD/CFT completam esse movimento. São temas que não voltam à agenda por falta de definição, mas porque chegaram à fase em que precisam sair definitivamente do papel e virar cultura. O comportamento do jogador muda, a tecnologia muda, as fraudes mudam, e aquilo que antes parecia suficiente, pode virar ponto de vulnerabilidade. Nesse contexto, calibrar padrões de identificação, monitoramento e reporte não é remendo: é manutenção vital de um setor cuja operação é contínua e altamente dinâmica. O risco mudou de forma; agora é a cultura do mercado que precisa mudar junto.

Mas não é apenas a agenda institucional que moldará o ano. No campo político, o aumento gradual da alíquota sobre o GGR – impulsionado pelo PL 5.473/2025 – promete reacomodar estruturas de custo e margens. A pauta fiscal tende a influenciar estratégias de investimento e pode até orientar decisões de permanência ou saída de operadores.

Também voltará com força a discussão sobre loterias municipais, reacesa pela liminar na ADPF 1.212. A decisão suspendeu operações em curso e iniciativas em formação, abrindo um debate essencial sobre competências e sustentabilidade jurídica desse modelo. Em termos de disputa federativa, esse tende a ser um capítulo tenso de 2026.

Outro ponto de alta sensibilidade é o uso de recursos do Bolsa Família e BPC. Apesar da vedação pelo STF e da posterior regulamentação pela SPA, trata-se de tema politicamente inflamável, que pode exigir novos ajustes técnicos e normativos – especialmente quando a tecnologia de verificação começar a ser testada em escala.

E aqui entra a grande tendência estrutural para 2026, aquela que realmente movimentará expectativas do mercado: o combate sistemático e coordenado ao mercado ilegal. O setor regulado espera, e o governo já sinaliza, uma estratégia mais agressiva de fechamento de brechas, com bloqueio de meios de pagamento, restrições tecnológicas, punições a influenciadores e redes de afiliados e desmonte das rotas de financiamento clandestinas. O objetivo é explícito: asfixiar economicamente o ambiente irregular e acelerar a migração para o canal autorizado.

Nesse cenário, com cerca de 80 operadores já licenciados, é improvável que essa estrutura permaneça intacta. É natural prever um ciclo de consolidação – fusões, aquisições e reorganizações – típico de setores que atravessam a transição entre o caos inicial e a concorrência madura.

Por fim, cresce a possibilidade de entrada dos mercados de predição, que funcionam como derivativos de expectativas. Se avançarem, abrirão nova fronteira regulatória e testarão a elasticidade jurídica da Lei 14.790.

Assim, 2026 não será apenas um ano de ajustes: será o ano em que o setor, o Estado e a opinião pública disputarão o rumo definitivo da regulação. Um ano em que o sistema terá que provar que não só regula, mas faz valer a regulação.

Alessandra Astolphi
Alessandra Astolphihttp://namidia.com.br
Alessandra tem passagens por alguns dos maiores veículos de comunicação do estado de São Paulo, como Editora Abril, Folha de São Paulo, Estadão, Diário do Grande ABC e Revista Livre Mercado. Colunista dos portais de notícias Tô na Band e São Paulo em Destaque e está à frente dos portais Economia SA, com foco em negócios, e Viajar SA. É sócia-diretora da Business Group Events, agência 360º, única no mercado que atende desde projetos para redes sociais e artistas até negociação de shows e eventos.
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