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35,4% dos homens que iniciam terapia com testosterona não têm deficiência hormonal

Mais de um terço dos homens que iniciam terapia com testosterona não tem qualquer evidência de deficiência hormonal, segundo estudo publicado na revista eBioMedicine que acompanhou mais de trezentos e cinquenta mil homens adultos por até uma década e comparou quem repõe o hormônio por necessidade clínica com quem começa sem diagnóstico.

O que o estudo sobre terapia com testosterona mediu e o que ele não mediu?

O estudo comparou homens que iniciaram a reposição com diagnóstico de deficiência e homens que começaram sem nenhuma evidência dela.

A pesquisa acompanhou homens adultos atendidos em mais de uma centena de instituições de saúde, mediu ao longo de anos quantos eventos cardiovasculares graves ocorreram em cada grupo e separou o efeito da terapia com testosterona do efeito de tomá-la sem indicação.

Recorte medidoNúmeroFonte
Homens acompanhados, de 30 a 75 anos358.957Estudo publicado na revista eBioMedicine
Instituições de saúde envolvidas123Estudo publicado na revista eBioMedicine
Tempo máximo de acompanhamento10 anosEstudo publicado na revista eBioMedicine
Iniciaram a terapia sem evidência de hipogonadismo35,4%Estudo publicado na revista eBioMedicine
Aumento do risco de evento cardiovascular grave nesse grupo51%Estudo publicado na revista eBioMedicine
Aumento da mortalidade por qualquer causa nesse grupo90%Estudo publicado na revista eBioMedicine

Os números completos aparecem na cobertura sobre o uso de testosterona sem indicação e seus desfechos de longo prazo.

O que a pesquisa não mediu está dito pelos próprios autores, e essa ressalva muda a leitura do achado.

Eles registram que a análise não acompanhou homens em tratamento de hipogonadismo confirmado, o que significa que o resultado não contesta a reposição feita com deficiência documentada, e sim a decisão de iniciar terapia com testosterona sem que essa deficiência exista.

O que muda na segurança da terapia com testosterona quando há indicação?

A mesma substância muda de papel conforme exista ou não uma deficiência documentada antes da primeira dose.

Com diagnóstico confirmado, a reposição corrige uma falta e é acompanhada por exames periódicos que mostram se o organismo responde como esperado, enquanto sem diagnóstico o hormônio entra em um corpo que já produzia o suficiente e o excesso passa a cobrar preço no sistema cardiovascular.

O achado não afirma que a terapia com testosterona faz mal a quem precisa dela, e essa distinção é o ponto central do estudo. O que separa os dois cenários é o monitoramento, porque o acompanhamento clínico existe justamente para flagrar o que o paciente não sente.

O que caracteriza deficiência real de testosterona?

Deficiência hormonal é sintoma persistente somado a exame laboratorial alterado, sempre lido dentro de um quadro clínico completo.

A Sociedade Brasileira de Urologia, Seção São Paulo, sustenta que o hormônio não é suplemento nem substitui hábitos saudáveis, e que a reposição só é recomendada quando existe deficiência comprovada por exame e interpretada junto do histórico e dos sintomas relatados pelo paciente.

Hipogonadismo é o nome clínico dessa deficiência, e ele não se confunde com a queda gradual que acompanha o envelhecimento masculino. O que separa um do outro é a documentação:

  • Dosagem hormonal alterada em mais de uma coleta, feita pela manhã, quando os níveis são mais altos
  • Sintomas persistentes registrados em consulta, não relatados de passagem
  • Investigação das causas possíveis da alteração, antes de qualquer prescrição
  • Registro do que motivou a indicação e de como o tratamento será monitorado

Uso off-label é o termo para quando o medicamento é empregado fora da indicação aprovada, situação que descreve boa parte do consumo medido pelo estudo. A entidade paulista detalha os impactos do uso deliberado de testosterona sobre a saúde masculina.

Por que sintoma isolado não fecha diagnóstico?

Cansaço, queda de libido e perda de disposição aparecem em várias condições, e nenhuma delas é exclusiva da queda hormonal.

Sono ruim, excesso de peso, uso de medicamentos, quadros de humor e doenças crônicas produzem o mesmo conjunto de queixas, e é por isso que a investigação começa pela história do paciente e não pelo resultado isolado de um exame de sangue.

Dr. Eliphas Levi Assumpção Egg Gomes é médico com atuação em hormonologia, emagrecimento e longevidade e fundador do Instituto Evolvian, clínica mineira que trabalha com protocolos individualizados de performance metabólica no interior de Minas Gerais.

O médico afirma que o critério diagnóstico precede qualquer decisão sobre hormônio. “Nenhum resultado hormonal se sustenta sem diagnóstico, porque não existe protocolo pronto que sirva para todo mundo e o hormônio só faz sentido quando há uma deficiência real confirmada.”

O médico associa esse critério à própria noção de qualidade de vida. “O novo luxo é ter saúde para viver tudo o que se conquistou, e isso se constrói com exame, acompanhamento e critério, nunca com atalho hormonal comprado sem indicação.”

Para quem procura o consultório com queixa de energia baixa, a diferença prática está no que vem antes da receita, porque a triagem superficial parte do sintoma para o hormônio, enquanto a avaliação criteriosa passa por sono, peso, humor, medicamentos em uso e exames repetidos.

Por que a testosterona circula sem prescrição médica?

Injeções e géis à base do hormônio são vendidos fora das regras, e a urologia brasileira desaconselha o uso sem prescrição.

A Sociedade Brasileira de Urologia registra que farmácias comercializam essas apresentações em desacordo com a legislação, e é esse acesso facilitado que ajuda a explicar por que tanta gente começa a repor hormônio sem nunca ter passado por uma avaliação clínica que justifique a indicação.

O caminho curto tem consequências práticas, e elas não são hipotéticas.

Sem acompanhamento, ninguém checa pressão, sangue, próstata nem fertilidade ao longo do uso, e o efeito que aparece no espelho esconde o que não é medido.

No Portal da Urologia, canal da Sociedade Brasileira de Urologia dirigido ao público, a entidade reúne as orientações sobre o uso indiscriminado de testosterona e sobre os riscos da compra sem acompanhamento.

O que checar antes de aceitar a primeira aplicação?

Antes da primeira aplicação, o diagnóstico precisa estar documentado, com exame, sintoma e conduta registrados no prontuário.

A régua é simples e não depende de conhecimento técnico do paciente, porque basta pedir que o médico mostre onde está escrita a deficiência, qual exame a comprova e qual será o intervalo de reavaliação clínica e laboratorial ao longo da terapia com testosterona.

  1. Peça o laudo com a dosagem hormonal e confira se houve mais de uma coleta, feita pela manhã
  2. Pergunte qual diagnóstico está registrado no prontuário e o que sustenta esse registro
  3. Confirme quais outras causas do sintoma foram investigadas antes da indicação do hormônio
  4. Peça o plano de monitoramento, com os exames que serão repetidos e de quanto em quanto tempo
  5. Verifique se existe critério de suspensão, isto é, o que faria o tratamento ser interrompido

Quando nenhuma dessas respostas existe por escrito, o que está sendo oferecido é venda de hormônio, não tratamento.

A distinção importa porque a mesma substância que corrige uma deficiência comprovada é a que aparece associada a maior risco cardiovascular quando entra no corpo sem que a deficiência exista.

Nada disso substitui consulta médica, e a decisão de iniciar ou não terapia com testosterona precisa ser tomada com um profissional habilitado que acompanhe o caso do começo ao fim.

Andrezza Barros
Andrezza Barroshttp://www.namidia.com.br
Jornalista, entrevistadora e assessora de imprensa brasileira. É CEO do site andrezzabarros.com, onde realiza entrevistas com os mais diversos públicos, desde empresários, cantores, atores, médicos, políticos, entre outros indivíduos que queiram contar um pouco da sua história ao público. Além desses, Andrezza também comanda o site deadlinews.com.br e é sócia do site materialivre.com.
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