Rainha Diambi desfila na Mocidade Alegre.
Uma Coroa que Desafia o Brasil: a Rainha do Congo no Carnaval de São Paulo 2026
Sabemos que há desfiles que passam e outros que ficam. E, ainda, há aqueles raros que reorganizam o imaginário coletivo. Assim, em 2026, a Mocidade Alegre não apenas atravessa o Sambódromo do Anhembi — ela impõe uma pergunta incômoda ao Brasil: quem tem direito à centralidade simbólica da nossa história?
Com doze títulos no currículo e uma tradição que dispensa apresentações, a escola convida Sua Alteza Real, Rainha Diambi Kabatusuila, da República Democrática do Congo, para ocupar a avenida. Não como alegoria, tampouco como ornamento, mas como sujeito histórico. A Rainha gentilmente aceitou o convite e, ao fazê-lo, o Carnaval deixa de ser apenas festa para se tornar afirmação política em estado puro.
Essa afirmação ganha corpo, forma e matéria na criação da estilista Rosy Cordeiro, responsável pelo traje que vestirá a Rainha na avenida. O vestido nasce da fusão entre realeza ancestral africana e alta costura contemporânea, transformando-se em um manifesto visual. Cada linha, textura e volume carrega mais do que estética: simboliza legado, território e poder feminino, elevando o figurino à condição de linguagem política.
A realeza que o Brasil aprendeu a esquecer
Coroada em 2016, Rainha Diambi Kabatusuila é líder tradicional e ativista global da identidade Bantu. Sua presença no Carnaval paulista não é folclore, muito menos exotização de uma África distante — é um espelho desconfortável. Enquanto o Brasil celebra o samba como patrimônio, ainda hesita em reconhecer a realeza negra como parte legítima de sua formação cultural.
Ao surgir na avenida, vestida por uma criação que dialoga com séculos de história e contemporaneidade, a Rainha rompe com camadas profundas de silenciamento. Ela não representa o passado — ela reivindica o presente.

Mocidade Alegre e o samba que não pede permissão
Recebida pela presidente Solange Cruz na Fábrica do Samba, a Rainha do Congo sela um encontro que ultrapassa protocolos. O enredo da Mocidade Alegre sobre ancestralidade negra não busca consenso: ele provoca, desloca e confronta.
A escola compreende algo que nem todas ousam assumir: o samba sempre foi linguagem de poder. Cada ala, cada batida, assim omo, cada silêncio coreografado constrói um discurso que recusa a neutralidade. A Mocidade não explica — afirma.
Léa Garcia: quando a arte vira linha de frente
A saber, a rapsódia negra apresentada na avenida tem como eixo simbólico a trajetória de Léa Garcia, uma das maiores atrizes da história do Brasil. Mulher negra, artista indomável, Léa atravessou décadas enfrentando um sistema que insistiu em confiná-la à margem.
Colocá-la no centro do enredo não é homenagem protocolar. Ou seja, é ajuste de contas. É dizer, em alto e bom som, que a cultura brasileira foi construída apesar — e não graças — às estruturas que tentaram silenciar corpos negros.
O Carnaval como território de disputa
Neste sábado, 14 de fevereiro, o Anhembi será mais do que passarela. Igualmente, será território simbólico em disputa. A presença da Rainha do Congo, vestida por uma criação que traduz ancestralidade em alta costura, reposiciona o Carnaval brasileiro no debate global sobre memória, diáspora e reparação cultural.
Em tempos de discursos vazios sobre diversidade, a Mocidade Alegre oferece um gesto concreto: entrega o centro da cena a quem historicamente foi empurrado para a borda.
Não é desfile. É declaração.
Portanto, a aparição da Rainha Diambi Kabatusuila no Carnaval de São Paulo não é um episódio exótico a ser consumido e esquecido na quarta-feira de cinzas. É um marco.
Enfim, em 2026, a avenida não apenas canta, dança ou emociona — ela confronta, coroa e cobra memória.
Rainha Diambi desfila na Mocidade Alegre.
Fonte: UZ Studios/Divulgação
Fotos: Divulgação/Acervo Pessoal
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