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Como os papas ajudaram a humanidade a superar a peste. Em 590, Roma vivia sob o signo de um surto de peste vinda do Egito.

Depois de devastar o território bizantino no Leste e o dos francos no Oeste, a violenta epidemia de peste, a terrível lues inguinaria, semeou a morte e o terror na península italiana e atingiu a Cidade Eterna com a força de um castigo divino.

No mesmo ano, o italiano do Império Bizantino Gregorius Anicius foi eleito papa Gregório I, também conhecido como Gregório Magno, para suceder Pelágio II, primeira vítima colhida pela pestilência.

Àquela altura, a epidemia já havia causado milhares de mortes na Itália, e parecia não cessar.

Foi então que o recém coroado pontífice decidiu enfrentar o flagelo da peste.

Em um famoso sermão, proferido na igreja de Santa Sabina, o papa Gregório convidou os romanos a seguir, contritos e penitentes, em uma “ladainha septiforme”.

Isto é, uma procissão dividida em sete cortejos, pelas ruas pestilentas de Roma.

Eles deveriam atravessar a cidade para levar até a Basílica de São Pedro a imagem da Virgem Maria, conservada em Santa Maria Maggiore e pintada pelo evangelista Lucas.

Em ritmo lento, com os pés descalços e a cabeça coberta de cinzas, enquanto a multidão viajava pela cidade, imersa em silêncio sepulcral, a praga atingiu Roma com força.

E no curto espaço de uma hora, oitenta pessoas caíram mortas no chão.

Gregório, porém, não desistiu e não parou de encorajar o cortejo a seguir adiante.

Ao chegarem na ponte que ligava a cidade ao Mausoléu de Adriano, Gregório olhou para cima e viu, sobre o cume do castelo, a grande figura armada do Arcanjo São Miguel.

Enxugando o sangue da sua espada e recolocando-a na bainha. Com isso, a peste tinha acabado.

Na época chamado Castellum Crescentii, o Mausoléu de Adriano foi rebatizado de Castel Sant’Angelo, em homenagem à vitória do povo de Roma sobre o flagelo da peste.

E ganhou, no seu alto, a estátua de um armado São Miguel, chefe das milícias celestes, que coroa o edifício.

O papa Gregório I foi canonizado e proclamado Doutor da Igreja, entrando para a história com o apelido de “Grande”.

Ainda hoje, no Museu Capitolino, há uma pedra circular com as pegadas que, segundo a tradição, teriam sido deixadas pelo Arcanjo quando ele parou para anunciar o fim da praga.

Como os papas ajudaram a humanidade a superar a peste

Como os papas ajudaram a humanidade a superar os surtos de peste ao longo da história

Em 1522, também uma epidemia de peste vilipendiava Roma, deixando um rastro de milhares de mortos pela cidade, e a Igreja Católica vivia uma de suas maiores crises,.

Ameaçada não apenas pelo luteranismo ao Norte, mas também pelo avanço dos turcos otomanos no Leste. 

Naquele ano, o cardeal holandês Adriaan Florensz Boeyens, então bispo de Tortosa, na Espanha, foi eleito papa em um Conclave no qual ele mesmo estava ausente.

Em votação quase unânime e como uma alternativa para acabar com o impasse que existia entre os cardeais espanhóis e franceses.

Eleito em janeiro de 1522, o papa Adriano VI só conseguiu fazer sua entrada solene em Roma em 29 de agosto daquele ano, em meio a praga que assolava a cidade.

E a exemplo de Gregório I, o novo pontífice também conclamou o povo romano a combater a epidemia.

Três anos antes, em 1519, a tradicional Igreja de San Marcello al Corso, dedicada ao papa Marcelo I e localizada na Via del Corso, foi completamente destruída por um violento incêndio.

Exceto por um Crucifixo de madeira que permaneceu intacto, tornando-se imediatamente objeto de veneração.

No ano da “Grande Peste”, 1522, Adriano VI convocou os romanos a levarem com fé, em procissão penitencial pelas ruas da capital, o milagroso Crucifixo de San Marcello até a Basílica de São Pedro, invocando a libertação da peste.

As autoridades quiseram impedir a procissão, mas o desespero coletivo falou mais alto e a imagem de Cristo foi transportada sob forte aclamação popular.

A procissão durou 16 dias e quando o Crucifixo regressou à sua origem, a peste já tinha cessado.

Até os dias de hoje, os fiéis mais devotos costumam se reunir, todas as sextas-feiras, para rezar e acender velas aos pés da imagem de madeira.

Esse ritual só foi interrompido recente, em 2020, quando uma nova praga se abateu sobre Roma e toda Itália.

O inimigo a ser combatido agora não é mais a peste, e nem uma praga vinda do Egito, mas um novo vírus, nascido nos confins da China.

Vindo de uma família de coronavírus que provocam infecções respiratórias, o novo agente patógeno foi descoberto em dezembro de 2019, após casos registrados em Wuhan, na província de Hubei, da China.

Rapidamente, a doença batizada de Covid-19 espalhou-se pelo mundo, ganhando as proporções de uma pandemia e infligindo um novo flagelo sobre a Itália.

O país europeu hoje vive tempos difíceis. Com mais de 60 mil contágios e 6 mil mortes registradas, ele é o novo epicentro da doença, e apesar das várias medidas implementadas.

assim como, quarentena obrigatória a nível nacional, fechamento de bares e restaurantes e proibição de reuniões públicas .

Porquanto, os italianos ainda não conseguiram superar a dramática crise de saúde resultante da disseminação do vírus.

No Vaticano, um papa isolado, escudado por trás dos muros medievais da sua Cidade Estado, também sofre as consequências da pandemia.

Ao mesmo tempo em que tenta ajudar os fiéis e o povo italiano a combater o flagelo do novo coronavírus.

Como os papas ajudaram a humanidade a superar os surtos de peste ao longo da história

Então, na última semana, Francisco seguiu o exemplo daqueles que o antecederam no Trono de São Pedro que foram obrigados a combater violentas pragas:

– isto é, em uma imagem que viralizou pelo mundo, o papa foi visto caminhando pelas ruas desertas da capital italiana, em uma procissão solitária.

A princípio, pela mesma Via del Corso de onde, 500 anos antes, partiu o cortejo que ajudou Roma vencer a Grande Peste.

O pontífice rezou pelo fim da pandemia na Basílica de Santa Maria Maggiore, diante do ícone de Maria protetora do povo romano.

Em seguida, ele se dirigiu a San Marcello al Corso, para fazer a mesma súplica ao milagroso Crucifixo de madeira.

Assim, em outras medidas tomadas para tentar aliviar a situação e a dor daqueles que sofrem pela pandemia do novo coronavírus ao redor do mundo.

O papa determinou, através do Supremo Tribunal da Penitenciária Apostólica do Vaticano, que os pecados de pacientes acometidos pela Covid-19 sejam perdoados.

A medida, publicada em um decreto pelo tribunal, também alcança profissionais de saúde, além de estender a indulgência aos fiéis mortos pela doença sem a extrema-unção.

Assim, para esta sexta-feira, 27, está marcado um momento que promete ser histórico:

E, portanto, diante de uma Praça de São Pedro vazia, às 18h (14h no horário de Brasília), o papa presidirá um momento de oração.

E irá abrir uma exceção ao realizar a bênção “Urbi et Orbi” concedida normalmente apenas no Natal e na Páscoa.

Os católicos que recebem a bênção, pessoalmente ou através das mídias, podem, sob certas condições, receber uma indulgência especial. Ou seja, a remissão da punição pelos pecados.

Sua decisão de abrir esta exceção reforça a gravidade da situação global, que superou a China como o país mais atingido pelo surto do novo coronavírus.

E,  cuja sua capital, a Cidade Eterna, parece condenada a encontrar o seu fim.

Leia mais em: Epidemia Corona Virus prejudica Vaticano

 

 

Thales Reis é jornalista, com mais de 10 anos de experiência na área. Possui MBA em Relações Internacionais pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), de São Paulo e especializações em: Comunicação no Ambiente Digital pela ComSchool, de São Paulo; Teologia Cristã pela Universidade de Harvard; e Diplomacia Vaticana pelo Berkley Center for Religion, Peace & World Affairs da Universidade de Georgetown, dos Estados Unidos. É estudioso, pesquisador e especialista em assuntos relacionados ao Vaticano, ao papado e à Igreja Católica em Roma, traçando análises precisas sobre a atuação desta instituição milenar no cenário da política e das relações que regem os diversos atores internacionais.

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