TEATRO RIVAL APLAUDE RETORNO DAS DIVINAS DIVAS

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divinas divas, na midia, uiara zagolin

TEATRO RIVAL SUPERLOTADO APLAUDE RETORNO DAS DIVINAS DIVAS À TRADICIONAL CASA DE ESPETÁCULOS

divinas divas, na midia, uiara zagolin

O público demonstrou que estava mesmo com saudades, superlotando todas as dependências da casa. Depois de quase dois anos de ausência, as Divinas Divas voltaram ontem à noite ao palco do Teatro Rival Petrobras para uma única apresentação que deu origem ao documentário homônimo, dirigido por Leandra Leal. O show que, em sua primeira temporada, ficou 10 anos em cartaz (de 2004 a 2014) continua mantendo o seu formato de esquetes mesclando as atuações de DIVINA VALÉRIA, JANE DI CASTRO, ELOINA DOS LEOPARDOS e CAMILLE.

O espetáculo contou ainda as participações especiais de ANDREA GASPARELLY e do ator cearense SILVERO PEREIRA, uma das atrações da novela A Força do Querer, de Glória Perez, vivendo o personagem Elis Miranda. Durante a apresentação dos artistas, ROGÉRIA, o “travesti da família brasileira”, ainda recuperando-se em casa de uma infecção urinária, foi homenageado em dois momentos: primeiro por VALÉRIA, que a homenageou com a versão em espanhol da canção My Way, de Claude François, que ganhou  a imortalidade na versão inglesa e na voz de Frank Sinatra e no encerramento do show, quando JANE DI CASTRO dedicou a glamorosa noitada à ROGÉRIA, anunciando que em outubro ela já deverá estar no palco do Rival ao lado das outras divas.

Na plateia do Teatro Rival podiam ser avistadas muitos notáveis como Janaina Rueda, Regine de Mônaco, Yeda Brown, Sissy Diamond, Alexandro Haddad, Mauricio Code, Fábio Fabricio Fabretti, Dolores del Rio, Tadeu Conz, Rogério Marques, Valerio Araujo, Isadora Rocha, Alexandre Rico e Alex Arant.

Durante sua apresentação, Valeria contou passagens de sua carreira por diversas cidades do mundo e a história curiosa de um romance com um conde europeu. Camille K divertiu o público com um esquete saboroso imitando uma faxineira de teatro e voltando à cena minutos depois como uma estrela de grandes musicais, toda vestida em rosa. Andréa Gasparelly recordou um número imortalizado por Erick Barreto e homenageando com maestria a cantora Gal Costa, em duas de suas mais famosas canções. Eloína brilhou também com uma canção de sucesso de Marisa Monte e dublando a cantora espanhola Rocio Durcal. Já Jane di Castro lembrou várias passagens de sua carreira, fez uma homenagem à vedete Zaquia Jorge e contou passagens da novela de Glória Perez onde atua ao lado de Silvero Pereira.

DOCUMENTÁRIO PREMIADO

O longa metragem Divinas Divas, de Leandra Leal, que está em cartaz desde junho nos cinemas de todo o país, que fala de oito artistas travestis que faziam shows no Teatro Rival do Rio de Janeiro (pertencente à família de Leandra) nos anos 60 e 70. Rogéria, Jane Di Castro, Marquesa, Eloína dos Leopardos, Divina Valéria, Camille K, Fujika de Holliday e Brigitte de Búzios, já idosas, são as estrelas.

Para entender a origem do filme, vale a pena recuar para a década passada. Em 2004, para celebrar 70 anos da fundação do teatro, foi organizado um espetáculo chamado Divinas Divas, com todas as travestis mencionadas acima. A escolha do tema não foi por acaso: era uma homenagem àquelas artistas que sustentaram o funcionamento do Teatro Rival em alguns de seus piores anos, no auge da ditadura militar.

O espetáculo comemorativo fez enorme sucesso e durou dez anos. Em 2014 foi realizado o derradeiro show, com um número musical diferente e inovador. Aproveitando o momento, a diretora Leandra Leal, já proprietária da casa, decidiu rodar um documentário focando na preparação do último espetáculo e também na vida e carreira de cada uma das travestis. Nascia então, ali, o filme Divinas Divas.

O resultado é um trabalho comovente. As artistas contam sobre suas vidas, relembrando os momentos de glória da carreira, a difícil convivência com os familiares, seus amores e a repressão da ditadura. O processo de envelhecimento delas, retratado no filme, evoca no público a dor da passagem do tempo. Por outro lado, passa também uma mensagem de esperança: afinal, é possível sobreviver e envelhecer com dignidade, mesmo sendo homossexual, travesti, mesmo sendo diferente. A própria diretora, Leandra Leal, converte-se em personagem e recorda com carinho de momentos da sua infância, quando perambulava pelos bastidores do teatro e se maravilhava com a performance das travestis. De fato, o afeto da diretora pelas personagens transborda em todo o filme.

Além disso, o documentário exibe trechos dos shows, evidenciando o valor artísticos das apresentações.  O documentário lembra que no final dos anos 60, devido à marcação cerrada da censura governamental, o irônico e contestador Teatro de Revista estava praticamente extinto. Não se podia mais fazer piadas com os governantes. A concorrência com o cinema e a nascente televisão corroeram a presença do público e a ditadura foi a pá de cal.

A única opção de sobrevivência para o Rival foram os shows de travestis, sempre bons de público e sem críticas políticas, o que não criava problemas com a censura. Foi graças a eles que o teatro conseguiu atravessar todo o período da ditadura e seguir funcionando até hoje.

Se hoje uma travesti pode tranquilamente tomar café com suas amigas e comprar bijuterias no shopping center, naquela época ir a pé ao mercado poderia render uma prisão. Divina Valéria, por exemplo, conta no filme que sabia da proibição, mas não havia o que fazer. Afinal, ela não tinha como se vestir de outra maneira, pois era uma mulher. E foi presa repetidas vezes. Como de praxe, homofobia caminhava de mãos dadas com atração sexual reprimida: Divina Valéria também conta no filme que algumas vezes tinha que passar horas respondendo a perguntas dos policiais sobre detalhes de sua vida íntima, seu sexo biológico e sexualidade.

Se o governo prendia travestis nas ruas, também permitia com certa tranquilidade uma travesti debochada na TV Globo. Se a classe média conservadora aplaudia a polícia que eliminava as travestis de seus bairros, também se deliciava em ver a Rogéria cantando e dançando na sala de jantar. Como a própria Rogéria diz no filme: “eu sou a travesti da família brasileira”.

O filme dirigido por Leandra Leal é lindo, sensível, e nostálgico. E triste também, por retratar uma época que já não existe mais. Mas é, acima de tudo, um filme necessário e justo pra essas artistas que de peito aberto se atiraram contra as armas dos ditadores de uma época que o nosso povo não quer reviver nunca mais.

 

De Luiz Carlos Lourenço
Fotos de Eduardo Moraes e
Mauricio Code

 

 

 

 

 

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